O que o município mato-grossense de Nortelândia (250 km ao Norte de Cuiabá) tem a ver com Santa Cruz do Capibaribe (cerca de 200 km a oeste de Recife)? Considerado o segundo maior polo de confecções do Brasil (atrás apenas de São Paulo), o município do Agreste pernambucano serve de inspiração para o prefeito de Nortelândia, Neurilan Fraga. "Visitei Santa Cruz do Capibaribe e fiquei muito entusiasmado com o que vi. É o modelo ideal para Mato Grosso e, especialmente, para a nossa região que busca uma alternativa econômica desde o fim do garimpo", diz.
O sonho do prefeito começou a se tornar realidade graças a uma parceria com o Projeto Japuíra – uma iniciativa dos cotonicultores associados à Ampa (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão) que vem sendo concretizada pelo Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt). O Japuíra oferece treinamento em costura industrial utilizando uma metodologia de sucesso desenvolvida pelo consultor pernambucano Romero Sobreira e tem feito parcerias com prefeituras de vários municípios do interior de Mato Grosso, gerando mão de obra para indústrias de confecção de Cuiabá e de outros estados brasileiros. Nortelândia é considerado um case de sucesso e conta hoje com três grupos de costureiras treinadas pelo Japuíra: um total de 38 mulheres, sendo que dois grupos estão instalados na cidade e o terceiro num assentamento rural, o PA Raimundo da Rocha.
Segundo a secretária de Assistência Social de Nortelândia, Anita Peron, esses grupos atendem no momento a demandas de empresas de confecção tradicionais da capital mato-grossense, mas o "sonho de um futuro melhor" para o município – que hoje conta com cerca de 7 mil habitantes, mas chegou a perder mais de 50% da população de 12 mil pessoas da época áurea do garimpo – passa por um APL (Arranjo Produtivo Local*) de confecção. A parceria bem sucedida com o IMAmt levou o governo municipal a buscar outros parceiros, como a Secretaria de Estado da Indústria, Comércio, Minas e Energia (Sicme) e o Sebrae-MT, e a visitar polos de confecção como o Agreste pernambucano na busca de uma alternativa econômica para a população de Nortelândia.
"Estamos muito felizes com a parceria com o IMAmt, que vem divulgando nossos esforços em Nortelândia e provocando novos parceiros", diz Fraga, diante da expectativa de mais um passo significativo em direção à concretização de seu projeto. Desde dezembro passado, ele vem conversando com empresários de Santa Cruz do Capibaribe visando uma parceria que poderá fazer o APL deslanchar, promovendo o acesso a benefícios e incentivos fiscais. No final do ano passado, a empresária Sílvia Clemente, dona da KL Confecções, visitou Mato Grosso por sugestão do consultor Romero Sobreira e ficou "encantada" com as possibilidades identificadas em Nortelândia.
"Mato Grosso é um estado de muitas oportunidades. Fiquei encantada com o nível das costureiras formadas pelo Projeto Japuíra e o maquinário disponível", comentou Sílvia, referindo-se às máquinas de costura industriais do IMAmt – que conta hoje com recursos do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA) para a realização do Japuíra – e também às 56 compradas pela Prefeitura de Nortelândia. "Precisamos botar esse maquinário para funcionar", acrescentou a empresária que tem "uma carteira com 187 clientes" em Mato Grosso e terceiriza a costura de 100% de suas criações. Sua ideia é instalar uma empresa no estado e, para "amadurecer" esse projeto, Sílvia pretendia retornar a Mato Grosso esta semana. Uma manifestação na principal rodovia de ligação entre Santa Cruz do Capibaribe e Recife frustrou seus planos, porém seu cunhado Alexandre Henrique Ferreira (o do meio na foto) conseguiu desembarcar em Cuiabá na quarta-feira (dia 12 de fevereiro) e seguiu para Nortelândia em companhia do consultor Sobreira e de Osmar Rodrigues, coordenador do Projeto Japuíra.
Ferreira veio representando as empresas de sua cunhada Sílvia, da mulher Kelly (Bicho Radikal, de moda juvenil) e da irmã Marta (Seaboard, de surf wear), que têm interesse em trabalhar com as costureiras de Nortelândia. "Nosso maior problema hoje é a escassez de mão de obra. Temos aproximadamente 20 mil micros e pequenas fábricas no polo de confecções da região (que engloba os municípios de Caruaru e Toritama, entre outros, gerando ocupação e renda para mais de 100 mil pessoas e movimentando cerca de R$ 1,1 bilhão por ano, segundo estudo do Sebrae-PE). Viemos conversar com o prefeito Neurilan Fraga para depois fazermos as contas e vermos a possibilidade de negócio", adiantou Ferreira. É o Japuíra ajudando a concretizar sonhos e contribuindo para o desenvolvimento de Mato Grosso.
* Segundo o site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Arranjos Produtivos Locais (APLs) são aglomerações de empresas, localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva e mantêm vínculos de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais como: governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa.