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Algodão rouba espaço do milho

O produtor Ademir Ortiz de Góes, de Primavera do Leste (MT), plantou este ano 4.600 hectares de algodão, ampliando em 130% a área destinada à fibra em relação ao ano passado. O forte aumento reflete tanto a empolgação do agricultor com os preços do algodão para este ano quanto a decepção em relação às cotações do milho, produto que, no ano passado, ocupou 14.600 hectares das propriedades de Góes, roubando um espaço que tradicionalmente era destinado ao cultivo de algodão. "Em 2013, tirei 2.600 hectares do algodão e destinei ao milho na expectativa de vender o produto a R$ 20 o saco, mas na época da colheita o saco estava negociado a RS 12", conta o agricultor, que mantém uma área de 40.000 hectares na região sul de Mato Grosso e desde 2001 incluiu o algodão na rotação de suas culturas.

A decepção com os preços do milho o fez retomar o plantio de algodão. "Todo ano plantava entre 3.000 e 4.000 hectares de algodão. A exceção foi 2013. Agora vou permanecer com as lavouras de algodão, que são mais rentáveis", diz o agricultor, que entre dezembro e janeiro deste ano semeou mais de 510 milhões de pés de algodão. Assim como Ortiz, uma parte dos produtores de Mato Grosso optou pelo algodão tanto no plantio da primeira safra como no da segunda, feito logo após a colheita da soja precoce, que tem ciclo de 105 dias. Esses agricultores estão ajudando a engordar as estatísticas para a safra brasileira de algodão do período 2013/2014. As primeiras projeções colocam o pais em posição de destaque entre os grandes produtores mundiais da fibra, pois o Brasil será o que mais elevará o volume e um dos poucos a investir no incremento de área. Levantamento do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) aponta para um aumento de 23% no volume da safra brasileira.

O número do USDA está ligeiramente abaixo do da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que prevê alta de 25,3% para a safra deste ano. Em área, o crescimento será de 22%. Em seu relatório de fevereiro sobre a estimativa de safra, a Conab apontou o algodão como a melhor alternativa de plantio na Região Centro-Oeste, sobretudo em Mato Grosso. De acordo com os técnicos da entidade, a perspectiva de aumento da receita fundamenta o incremento observado na área de plantio.' É com algodão que vou ganhar dinheiro este ano", diz o produtor Alexandre Schenkel, de Campo Verde (MT). O jovem, que cultiva soja, algodão, feijão e milho, ampliou em 60% a área destinada ao cultivo da fibra este ano. "O algodão me garante segurança", diz.

Schenkel diz isso porque 70% da sua safra, que será colhida a partir de junho, já está vendida. O mesmo não acontece com o milho, que, devido à baixa liquidez, não costuma ser comercializado antecipadamente como o algodão e a soja. Além da segurança, os preços do algodão seguem valorizados no mercado internacional e subiram, em média, 20% no último ano, saindo dos RS 63 por arroba, em janeiro de 2013, para os atuais RS 75 por arroba.

Este ano Mato Grosso deve responder por 56% da safra nacional e permanecerá liderando a produção de algodão no mercado interno. No Estado, a área plantada crescerá 30%, para 613.000 hectares. Pelos cálculos da Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), o município de Campo Verde, que até o ano passado era conhecido como a "capital nacional do algodão", deve cultivar este ano 82.000 hectares da fibra, atrás de Sapezal, município que. pela primeira vez, vai liderar a produção de algodão no pais, com 96.000 hectares cultivados. "Em todo o Estado de Mato Grosso, existem microclimas aptos ao cultivo de grãos. Sapezal é toda agricultável". diz Milton Garbugio, presidente da Ampa.

A contribuição de Mato Grosso na ampliação do plantio de algodão será decisiva para que o Brasil se destaque no cenário internacional. O pais se posiciona atualmente como o sexto maior produtor mundial. A China, que é o maior do mundo, planeja reduzir a safra em 9,3%; a índia, segundo maior, elevará em 1,7%; enquanto os Estados Unidos diminuirão em 31% a produção de 2013/2014. Ainda de acordo com o USDA, o Paquistão deve elevar a safra em 4,5%. Nos demais produtores, a tendência é de queda. "Depois da recente aprovação da nova Lei Agrícola nos Estados Unidos – que trouxe como inovação um seguro de renda para o cotonicultor -, acredito que o plantio de algodão vá explodir naquele país nos próximos anos", avalia Gilson Pinesso, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Caso os americanos resolvam mesmo ampliar as próximas safras, na avaliação de Pinesso, os mais afetados serão os brasileiros, que movimentam uma cadeia cujo Produto Interno Bruto (PIB) é de US$ 17 bilhões. Segundo ele, o plano estratégico do setor era, em seis anos, ultrapassar a produção dos Estados Unidos. "A exemplo do que aconteceu com a soja, temos condições climáticas, área e tecnologia que nos permitem ultrapassar o volume de algodão dos Estados Unidos", avalia o presidente da Abrapa. Atualmente, a safra americana se situa em 3,5 milhões de toneladas por ano. "Temos excelentes condições de concorrer no campo, mas não conseguimos concorrer com o Tesouro americano", diz Pinesso.

Pelos cálculos do executivo, somente em Mato Grosso, onde o cultivo deve superar os 613.000 hectares este ano, há disponibilidade de 1 milhão de hectares que podem ser semeados com algodão após a colheita da soja. "Os produtores brasileiros só não aumentam mais a área porque não conseguem concorrer com os Estados Unidos, que são mais competitivos no mercado externo, por conta dos subsídios", avalia Pinesso.

Este ano o Brasil deve colher 1,64 milhão de toneladas, das quais 800.000 já foram comercializadas. "A maior parte das vendas antecipadas se refere a contrato de exportação, mas também há alguns contratos denominados flex, em que o comprador decide posteriormente se vai destinar a mercadoria ao mercado externo ou interno." Em geral, o Brasil exporta cerca de 40% do algodão que produz para China, Coréia, Tailândia, Indonésia, Paquistão e Turquia.

Ao longo de 2014, as exportações brasileiras devem se situar em 700.000 toneladas e gerar receita próxima de USS1 bilhão, em alta de 43% em relação à receita do ciclo 2012/2013. A indústria nacional deve consumir cerca de 900.000 toneladas no período. "A demanda interna está estabilizada entre 900.000 e 950.000 toneladas por ano. Quando há um aumento, acaba sendo por tecido sintético", diz Pinesso.

Na avaliação de Dilézio Ciamarro, presidente do Sindicato das Tecelagens de Americana, Nova Odes-sa, Santa Bárbara do Oeste e Sumaré (Sinditec). o aumento das importações, em especial da China, é prejudicial ao setor. "Várias fiações foram fechadas nos últimos anos. Agora, ao invés de fabricarmos o fio no Brasil, estamos importando fios para abastecer as tecelagens", diz o diretor do Sinditec, que congrega 600 tecelagens na região, que adquirem boa parte da produção de algodão de Mato Grosso.

Na contramão dessa realidade, a Cooperativa dos Produtores de Mato Grosso inaugurou, em 2011. uma fiação em Campo Verde com capacidade de processar entre 10% e 15% da safra do Estado, que pode superar 920.000 toneladas este ano. "No longo prazo, vamos instalar um polo industrial no Estado com fiação, tecelagem e confecção", afirma Pinesso, que também expandiu suas lavouras dos 18.000 hectares de 2013 para 22.000 hectares este ano. De acordo com seus cálculos, os preços praticados pelo mercado estão remunerando bem a atividade. "O custo de produção oscila, em média, em RS 61 por arroba. Ao preço atual, há uma remuneração de 23%", diz.

Em meados de fevereiro, o setor teve uma reivindicação antiga contemplada: o reajuste do preço mínimo do algodão, que permaneceu inalterado por dez anos. O novo valor, no entanto, não agradou o setor, pois ficou abaixo do custo de produção estimado para este ano. Pela decisão do governo federal, o valor passará de RS 44 por arroba para RS 54,90. A Abrapa reivindica ainda que o valor seja elevado para RS 57, no patamar que a Conab calcula que sejam os custos de produção da safra atual. Projeções da Abrapa indicam que a cotação do algodão pode se acomodar em RS 65 por arroba no mercado interno durante o escoamento da safra nacional.

Além das disputas internas, no mercado externo, os cotonicultores brasileiros ainda terão de se posicionar diante da aprovação da nova Lei Agrícola dos Estados Unidos, que pode vir a prejudicá-los. Enquanto esperam, produtores brasileiros investem na melhoria de suas lavouras. Este ano, a produtividade média nacional deve crescer 5%, podendo alcançar 1.450 quilos de pluma por hectare, em comparação com os 1.380 quilos do ano passado. O aumento reflete a introdução em maior volume este ano das novas variedades Bollgard D, resistente a insetos da ordem Lepidopdera (muito diversificada, que soma 180 mil espécies de borboletas e mariposas); e Widestrike, resistente à mesma ordem de insetos e também ao herbicida glufosinato de amônio.

Atualmente, a produtividade nacional é superior à americana – que gira em torno de 1.250 quilos por hectare – e está abaixo da australiana, em torno de 2.000 quilos. 0 bom rendimento no campo, no entanto, não garante a tranquilidade do agricultor. "Estamos de olho na China, que formou grandes estoques de pluma. Qualquer movimentação dela mexe muito com o mercado", diz Garbugio. Até o momento, o pais asiático tem administrado os estoques de maneira moderada. "Este ano a produção será menor, em torno de 6,5 milhões de toneladas, para um consumo estimado em 8,5 milhões", conclui Pinesso.

Nova lei agrícola nos EUA traz subsídios –  Em 2009, o Brasil venceu uma disputa na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os Estados Unidos, que subsidiam seus cotonicultores. Na época, a OMC autorizou sanções de US$ 830 milhões. O Brasil não retaliou porque um acordo foi fechado em 2010 com os americanos. Por esse acordo, os EUA se comprometeram a pagar US$ 147 milhões por ano para o Instituto Brasileiro de Algodão (IBA) até que os parlamentares americanos aprovassem uma nova Farm Bill que estivesse de acordo com as regras da OMC. Em outubro do ano passado, os pagamentos foram suspensos pelos americanos. Restam ainda US$ 238 milhões a ser pagos ao Brasil.

A nova Farm Bill foi aprovada no inicio de fevereiro e, de acordo com Gilson Pinesso, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), tanto a lei quanto os programas de seguro propostos por ela devem gerar novas distorções nos preços do algodão. "Os preços devem cair 13% no mercado internacional em resposta à nova lei, que é danosa ao setor e vai causar impactos brutais para os brasileiros", afirma.

De acordo com o entendimento da Abrapa, a nova Lei Agrícola cria um novo mecanismo de seguro, que complementa um já existente. Juntos, eles garantem, por exemplo, até 90% da receita projetada pelos produtores americanos. Além disso, a Abrapa também detectou que o programa prevê que Washington subsidie até 80% do prêmio do seguro para o produtor.

Em resposta aos americanos, produtores brasileiros pediram paraetaliar US$ 118 milhões em royalties de sementes transgênicas desenvolvidas pelos Estados Unidos. Um dos produtos a ser retaliado seria a soja Intacta na safra 2014/2015. Essa é a principal variedade da empresa americana Monsanto atualmente no país. O outro produto seria o algodão Bolgard II, também da Monsanto, para o qual as associações de produtores pediram retaliações de US$ 98,1 milhões. O terceiro seria o algodão Widestrike, da Dow, que sofreria até US$ 53 milhões em retaliações.

No caso de a retaliação ser aceita, os produtores continuariam a pagar os royalties, mas os valores não seriam remetidos às empresas americanas. "Espero que o governo siga em frente com as retaliações, pois a nova lei dos Estados Unidos contém altos subsídios embutidos", avalia Pinesso.