A cotonicultura mato-grossense é sem dúvida um case de sucesso: em menos de duas décadas Mato Grosso se tornou o maior produtor brasileiro de algodão em pluma – contribuindo para que o País se tornasse um dos cinco maiores exportadores mundiais – e conquistou o respeito de consumidores no mundo inteiro. Por outro lado, a produção de algodão é uma atividade complexa, altamente tecnificada e tem custos muito altos em comparação com os de outras commodities agrícolas.
“O produtor de algodão lida com muitas variáveis e está sempre em contato com novas tecnologias. Temos que definir o tamanho da área de plantio, a variedade e o sistema de produção a ser adotado a cada safra, entre outras questões que terão reflexos na produtividade e na qualidade de nosso produto. Diante de tantos riscos é fundamental ter acesso a informações precisas e confiáveis para que possamos tomar decisões acerca de nosso negócio”, afirma Milton Garbugio, presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa).
Em 2009 a Ampa decidiu buscar o apoio do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), campus da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba. Ao longo de cinco anos de parceria com a Ampa, a equipe do Cepea aperfeiçoou a metodologia de coleta de dados. “Nossa intenção é sempre aprimorar esse trabalho de modo a proporcionar a nossos associados os dados e informações mais relevantes”, diz Décio Tocantins, diretor executivo da Ampa.
Os frutos dessa parceria servem de referência para reivindicações feitas ao governo federal visando à formulação de políticas públicas e podem também apontar a necessidade de se buscar uma nova alternativa de tecnologia aplicada ao plantio. Podem ainda balizar decisões dos próprios produtores como o recuo estratégico na área de plantio (tomada no final da safra 2011/2012) e a retomada dessa mesma área para a safra atual (2013/2014).
Estudo de caso – Nos primeiro anos da parceria, a coleta de dados era feita por meio de painéis que reuniam agentes envolvidos na produção e comercialização da fibra em Mato Grosso, tendo como referência uma “fazenda típica”, conta o professor e pesquisador Lucilio Alves, coordenador do setor de grãos e fibras do Cepea/Esalq. A enorme diversidade que caracteriza a cotonicultura mato-grossense (distribuída por sete Núcleos Regionais) e a complexidade crescente dos sistemas produtivos com a introdução de novas tecnologias, entretanto, levaram os responsáveis pelo projeto “Acompanhamento Mensal de Indicadores de Custos de Produção de Algodão, Soja e Milho em Mato Grosso” a adotar um novo modelo de coleta de dados a partir da safra 2012/2013: o estudo de caso. Os pesquisadores do Cepea passaram a visitar fazendas escolhidas (em parceria com a Ampa), onde é feito um minucioso levantamento de dados sobre diferentes sistemas produtivos.
“Na safra passada, foram 15 fazendas analisadas e este ano temos 22 propriedades, que acabaram de ser visitadas por nossos pesquisadores numa primeira fase, cujo objetivo é levantar informações sobre a estrutura da fazenda, o ativo fixo (máquinas, equipamentos, etc) e o custo operacional de cada lavoura cultivada”, conta Alves. Em setembro próximo, os mesmos pesquisadores voltarão a essas fazendas para concluir o levantamento de dados, coletando indicadores sobre as lavouras de soja, milho e algodão. “Nosso objetivo é ter dados de três a quatro fazendas por Núcleo Regional, representativas de diferentes sistemas produtivos”, acrescenta o coordenador.
Ele destaca que o cotonicultor mato-grossense não se restringe ao cultivo do algodoeiro (aliás, a cotonicultura em nível empresarial surgiu em Mato Grosso na década de 1990 como uma alternativa para rotação com a soja) e hoje a viabilidade econômica de uma propriedade rural depende de muitas variáveis, que inclui a escolha do sistema produtivo. Há quem prefira plantar soja como primeira safra e opte pelo plantio de algodão e/ou milho na segunda safra; há quem opte por cultivar algodão de primeira safra e se dedicar a outras culturas na segunda safra; há quem só plante algodão no espaçamento tradicional de 0,90 m, enquanto outros agricultores apostam nos espaçamentos de 0,76 m e 0,45 m (adensamento). Além disso, a escolha pela variedade de semente determina maiores ou menores gastos com insumos e com a aplicação de defensivos agrícolas.
Paralelamente ao trabalho realizado em campo, integrantes da equipe do Cepea fazem o levantamento das cotações dos insumos (fertilizantes, defensivos agrícolas, etc), enquanto outros acompanham a comercialização nos mercados físico e futuro (neste caso em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão – Abrapa). Depois de coletados, todos esses dados são enquadrados numa metodologia desenvolvida pelo Cepea, já consolidada. Eles são analisados pela equipe do Cepea e vão gerar informações valiosas para a Ampa e seus associados. “Os produtores saberão o custo real de sua atividade, se o seu negócio está sendo viável, se está tento retorno para os altos investimentos necessários à produção de algodão e se a situação permite novos investimentos”, explica Alves.
Essas informações são disponibilizadas por meio de gráficos, tabelas e comentários da equipe do Cepea (com coordenação também do professor Geraldo Barros e do pesquisador Mauro Osaki) em informativos periódicos, cuja leitura é restrita a associados da Ampa. No caso das fazendas envolvidas na pesquisa, seus responsáveis receberão ao final do trabalho uma planilha e um breve descritivo do Cepea em que poderão ver seus custos comparados aos de outras propriedades analisadas em sua região (que não são identificadas por nome). Alves conta que a equipe de campo, que encerrou os trabalhos da primeira etapa no dia 20 de março, já adiantou que novas tecnologias estão sendo empregadas na safra atual (por exemplo, variedades com tolerância e/ou resistência combinada a lagartas e plantas daninhas).
Levantar indicadores seguros sobre a agricultura mato-grossense não é tarefa fácil diante da evolução das tecnologias e o surgimento de novas ameaças às lavouras (como a lagarta Helicoverpa armigera), mas numa época de margens de lucro apertadas é cada vez mais essencial poder contar com essas informações para garantir a sustentabilidade do agronegócio.