"Qual é o algodão do amanhã?" A pergunta feita por Fernando Pimentel, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), durante o IV Workshop da Qualidade do Algodão, dá o tom das discussões que aconteceram no auditório do Edifício Cloves Vettorato. Promovido na manhã desta sexta-feira (7 de outubro) pela Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa) e pelo Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt), o evento reuniu em Cuiabá cerca de 100 produtores, técnicos, pesquisadores e representantes dos diversos elos da cadeia produtiva.
Um tema presente em todas as apresentações foi a importância de o algodão mato-grossense (e brasileiro) buscar mais qualidade para conquistar o consumidor final e não perder mercado para o seu maior rival: a fibra sintética (principalmente, o poliéster). "Hoje o maior concorrente da pluma brasileira não é o produto dos Estados Unidos e da Austrália e sim o poliéster. Temos que ver EUA e Austrália como aliados", afirmou o pesquisador Renildo Luiz Mion, numa referência aos dois países que produzem no sistema mecanizado e lideram o ranking dos maiores exportadores de algodão junto com o Brasil. Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT – campus Rondonópolis), Mion está concluindo um pós-doutorado na Texas Tech University (TTU) e trabalha em parceria com o projeto Qualidade de Fibra do IMAmt.
Os trabalhos realizados por Mion no Laboratório de Pesquisa de Fibra e Biolpolímero da TTU, em Lubbock (Texas), que, segundo ele, servirão de referência mundial em melhoramento genético das variedades de algodão, apontam no sentido de resolver problemas como a presença de seed coat (casca de semente) e a variabilidade nos fardos em relação a características que afetam a qualidade da pluma. Mion comparou resultados alcançados com o uso de HVI (sistema mais utilizado hoje nos laboratórios de classificação de pluma brasileiros) e máquinas de análise AFIS, mais sofisticadas.
Pesquisas realizadas por unidades de ponta como a TTU também sinalizam em direção a uma nova tendência em qualidade do algodão: o desenvolvimento de processos com o objetivo de acrescentar propriedades novas aos tecidos de fibra natural, como impermeabilidade à penetração de água ou de substâncias oleosas, proteção contra raios ultravioletas (UV) e autolimpeza.
"O futuro caminha para a confecção de tecidos inteligentes", comentou o diretor executivo da Abit, Fernando Pimentel, falando sobre as novas tendências do setor têxtil, como a produção de vestuário voltado para a prática esportiva e de uniformes militares (com proteção antichamas, por exemplo). "Precisamos trabalhar muito a evolução e investir na pesquisa para que a fibra natural atenda às necessidades do consumidor contemporâneo", acrescentou.
Sustentabilidade – Na primeira mesa do workshop, intitulada "Cenário presente e futuro da qualidade do algodão", a importância de se assegurar maior uniformidade nos lotes comercializados pelos produtores foi enfatizada por Marco Antonio Aluisio e Henrique Snitcovski, respectivamente, presidente e diretor da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea). Eles disseram que a presença de pluma com diferentes comprimentos de fios e com diferenças em outras características intrínsecas num mesmo lote prejudica a imagem do produto brasileiro e acarreta prejuízos para os cotonicultores.
"O preço do lote é determinado pela pluma de pior qualidade. Todo algodão tem mercado, mas para atingir o prêmio é preciso ter uniformidade", afirmou Aluísio. Snitcovski enfatizou que é importante assegurar a uniformidade como forma de garantir um lugar de destaque para a pluma brasileira em termos de valor no mercado internacional: "Temos que posicionar o algodão brasileiro num patamar de preços que garanta ao produtor a continuidade do plantio".
Walter Hamaoka, gerente comercial e classificador de algodão da Kurashiki do Brasil; e Alex Kurre, da Santista S.A. apresentaram aos produtores as demandas da indústria. Kurre abordou as tendências de sua empresa com foco na confecção de denim e workwear (vestuário de trabalho), revelando que hoje os consumidores buscam peças mais leves e flexíveis, o que obriga a indústria a focar mais na qualidade da pluma utilizada. Hamaoka, que representa uma indústria de fiação de ponta (fornecedora de matéria-prima para algumas das maiores grifes do mercado de vestuário), alertou que a modernização no processo de colheita, a utilização de novas variedades de sementes e a própria automação da indústria de fiação, vêm acendendo um sinal amarelo para empresas como a Kurashiki do Brasil que dependem de uma pluma de maior qualidade.
"Cem por cento de nossos fornecedores de algodão hoje são de Mato Grosso e muitos deles são cativos, mas nossa intenção aqui foi mostrar as dificuldades que estamos enfrentando para encontrar pluma no padrão de qualidade exigido para a confecção do fio penteado para que os produtores possam nos ajudar", explicou.
No encerramento dessa primeira mesa, Milton Garbugio, ex-presidente da Ampa e vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), fez um breve retrospecto do Workshop da Qualidade do Algodão, cujo objetivo é "conscientizar produtores e gestores de algodoeiras sobre os problemas que afetam a qualidade da pluma". Ele falou também sobre o projeto em curso para estender a toda cadeia produtiva do algodão o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Abrapa. As ações realizadas nesse sentido foram apresentadas por Felix Balaniuc, diretor executivo do Instituto Algodão Social (IAS), que foi pioneiro no processo de certificação da pluma mato-grossense com a criação do selo Algodão Socialmente Correto em 2007.
Escola de Beneficiamento – Outro tema abordado durante o IV Workshop da Qualidade do Algodão foram as ações realizadas pelo projeto Qualidade de Fibra (Ampa/IMAmt) desde 2012. O coordenador do projeto, Jean Louis Belot, fez um balanço da safra recém-concluída. Ele falou que suas pesquisas indicaram que houve melhoria em relação às características intrínsecas da pluma (comprimento, resistência, uniformidade, micronaire) na safra 2015/16, mas alertou os produtores a terem cautela na tomada de decisão quanto às variedades a serem semeadas na safra 2016/17. "Eles não devem se basear nos resultados desta última safra, já que tivemos um ano atípico em termos de clima", afirmou.
Belot falou de iniciativas do IMAmt visando melhorar a qualidade da pluma mato-grossense, como a criação da Escola de Beneficiamento, que está sendo construída no Centro de Treinamento e Difusão Tecnológica do Núcleo Regional Sul, em Rondonópolis. Os equipamentos da micro usina a ser utilizada na qualificação de mão de obra estão sendo fabricados pela Lummus (líder mundial no setor), nos EUA, e deverão chegar a Rondonópolis no final deste ano. "A intenção do IMAmt é iniciar os primeiros treinamentos em meados do primeiro semestre de 2017 e temos certeza de que essa Escola de Beneficiamento (a única do Brasil) terá reflexos significativos para a qualidade da fibra mato-grossense e brasileira, já que servirá de referência para todo país", comentou Belot.
Nessa segunda mesa do workshop, Paulo Vicente Ribas, um dos sócios da Cotimes do Brasil, apresentou um trabalho sobre os principais fatores que impactam na questão da qualidade nas usinas de beneficiamento. Ele enfatizou a importância de se fazer a gestão de manutenção nas algodoeiras de uma forma mais eficaz e também de promover a constante capacitação dos gestores das usinas por meio de treinamentos oferecidos pelo IMAmt e parceiros como a Cotimes.
O encerramento do workshop foi feito por Erik Trench Alcantara Santos e Marcelo Augusto Bonucci, coordenador técnico e consultor técnico da Ultragaz, representante da Ultragaz, que falaram sobre atividades da parceria recentemente firmada entre a empresa e Ampa/IMAmt visando aperfeiçoar a gestão eficiente de umidade nas usinas de beneficiamento de algodão.
O IV Workshop da Qualidade do Algodão foi realizado com patrocínio do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA).