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Ampa homenageia pioneiros na nova sede

A inauguração do Edifício Cloves Vettorato, nova sede da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa) e da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), foi uma oportunidade para homenagear os pioneiros da cotonicultura empresarial em Mato Grosso.

"Nosso Estado é hoje responsável por mais de 50% da produção brasileira de algodão e os associados da Ampa contribuíram para que o País voltasse à condição de exportador. Mas essa virada começou com alguns pioneiros que, no início dos anos 90, iniciaram o  plantio do algodoeiro numa escala empresarial, iniciando uma história de sucesso que levou à própria criação da Ampa", afirma Milton Garbugio, presidente da entidade.

Para homenagear os primeiros agricultores que acreditaram nesse novo modelo de cotonicultura, a diretoria da Ampa decidiu batizar como "Sala dos Pioneiros" o local onde serão realizadas suas principais reuniões. Uma placa na entrada da Sala nomeia esses pioneiros: Mario Patriota Fiori, Benjamim Zandonadi, Ignácio Mammana Netto, Olacyr de Moraes e Adílton Sachetti.  Com o objetivo de resgatar parte da história deles, o "Jornal dos Pioneiros" foi distribuído durante a solenidade da inauguração e está disponível para os associados e demais interessados na nova sede da Ampa.

 

Amigos –  Pode-se dizer que essa história começou com dois amigos: os paulistas Olacyr de Moraes e Ignácio Mammana Netto. A eles se juntaram Benjamim Zandonadi, os primos Mario Patriota Fiori e Daniel Montoro e, num segundo momento, Adílton Sachetti.  É importante lembrar que, na década de 80, ocorreram algumas experiências de cultivo mecanizado da fibra em Goiás (com a família Maeda) e Mato Grosso do Sul (na região de Dourados). Ignácio Mammana Netto chegou a plantar algodão no Paraná e foi lá que conheceu o jovem engenheiro agrônomo Benjamim Zandonadi, quando ambos eram ligados à Cooperativa Agrícola de Goioerê (Coagel).

Martha Baptista
Ampa - Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão.

Segundo o paranaense Mario Patriota, foi Ignácio quem sugeriu ao amigo Olacyr, no limiar dos anos 90,  o plantio do algodoeiro no Chapadão do Parecis, como alternativa à monocultura da soja.  Na época, Benjamim, Mario e seu primo Daniel também buscavam uma cultura alternativa no Sul de Mato Grosso e acreditavam no potencial da região de Itiquira para o cultivo do algodoeiro. Com o objetivo de conhecer as lavouras de algodão de Olacyr e Ignácio, Benjamin e Mario (juntamente com seu tio Clóvis Patriota) voaram até o Chapadão do Parecis, onde visitaram as fazendas Itanorte (de Olacyr) e Cantagalo (de Ignácio) e voltaram entusiasmados com os resultados alcançados com a variedade IAC 20.

Uma doença fúngica (ramulose) alterou os planos de Olacyr e Ignácio após a safra 1990/91. Olacyr se manteve na região de Campo Novo do Parecis e investiu recursos próprios numa pesquisa que culminou com o lançamento da variedade CNPA ITA 90 pelo Centro Nacional de Pesquisa de Algodão (atual Embrapa Algodão) – um trabalho conduzido pelo pesquisador Eleusio Curvelo Freire.

Ignácio aceitou o convite de Benjamim e Mario para conhecer a região de Itiquira e, diante da avaliação positiva da Embrapa Algodão em relação aos dados climáticos da região para o cultivo do algodoeiro, foram plantados 1.500 ha da variedade IAC 20 na safra 1991/92.  Cada um tinha sua área de lavoura e, enquanto Benjamim, Mario e Daniel cuidavam do preparo da terra, Ignácio disponibilizava suas máquinas para a colheita. Os quatro montaram uma algodoeira no Distrito Industrial de Rondonópolis em sociedade.

"Iniciamos a atividade algodoeira com a visão de se produzir num modelo empresarial. Não queríamos comercializar o algodão in natura e, por isso, precisávamos de um volume de produção que viabilizasse o investimento para o beneficiamento e a comercialização do algodão em pluma", lembra Mario.

Uma das fazendas arrendadas por Ignácio era vizinha à da família Sachetti e Adílton (o mais velho de nove irmãos) se encantou pela cultura do algodão. Os Sachetti fizeram um plantio experimental na safra 1992/93 e não pararam mais de plantar algodão.  "Seu Ignácio era uma pessoa muito bacana e queria ver todo mundo ganhando dinheiro com a fibra", diz Sachetti.

 

Crise e oportunidade – Foram tempos difíceis para esses pioneiros e plenos de desafios. "Tínhamos que fazer o ajuste da cultura às condições climáticas da região e ainda enfrentar o descontrole da economia do País, com uma inflação galopante", recorda Zandonadi.  O maior desafio veio com a crise após a safra 1994/95, quando os agricultores ampliaram suas áreas de lavoura animados com os resultados das safras anteriores.

Ignácio, Benjamim, Mario e Daniel se entusiasmaram com a produtividade da variedade ITA 90, plantada numa área experimental na safra 1992/93. Na safra 1994/95, foram cerca de 6.500 ha plantados com a ITA 90, porém os prejuízos causados por uma virose (a Doença Azul, que também afetou as lavouras de Olacyr de Moraes), motivada pelo excesso de chuvas e o descontrole de pragas vetores da doença, frustraram os planos dos pioneiros.

"Nossa expectativa era colher uma média de 270@/ha e colhemos uma média de 60@/ha. Passamos por uma situação extremamente difícil", conta Mario. Apesar de tudo, ele se sente orgulhoso de ter contribuído com outros pioneiros para alavancar a cotonicultura mato-grossense e acredita que a experiência vivida por eles motivou várias iniciativas fundamentais para a consolidação do setor algodoeiro.

A crise provocada pela safra 1994/95 gerou muitas oportunidades. Em primeiro lugar, despertou o interesse da pesquisa (de imediato, foi criado um grupo voltado para o algodão na Fundação MT) e propiciou a criação do Programa de Apoio ao Algodão de Mato Grosso (Proalmat) e do Fundo de Apoio à Cultura do Algodão (Facual) – aprovados em 1996, no Governo Dante de Oliveira, graças à iniciativa de Cloves Vettorato, que dá nome à sede da Ampa/Aprosoja.

As dificuldades enfrentadas também estimularam os pioneiros e outros agricultores que tinham aderido a essa cultura na época a fundarem a Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), em 1997.  O mesmo grupo criou o Instituto Algodão Social (IAS), em 2005,  e o Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt), em 2007.

Aos poucos, a qualidade da pluma mato-grossense foi conquistando consumidores de outros estados brasileiros e do outro lado do mundo, consolidando um modelo de agricultura empresarial, altamente tecnificado, que contribuiu para que o Brasil voltasse a estar no ranking dos maiores exportadores.  "A história do algodão em Mato Grosso é muito bonita e ela não foi feita por um só", resume Sachetti.