O controle de pragas nas lavouras de algodão depende mais de Manejo Integrado de Praga (MIP) do que de quantidade de aplicações de defensivos. Essa é a opinião do pesquisador entomologista, David Murray, do Farming Systems Institute, da Austrália. Ele apresentou o case de sucesso australiano no controle da lagarta Helicoverpa spp, que quase dizimou a produção de algodão de seu país nas décadas de 70 e 80. Murray participou da mesa-redonda sobre “Insetos no Sistema de Produção”, ocorrida no 9º Congresso Brasileiro de Algodão (CBA).
Segundo o pesquisador, a Austrália vinha perdendo a batalha contra a Helicoverpa spp e acumulando prejuízos financeiros, ambientais e sociais até ser adotado um conjunto de medidas que foi capaz de reduzir significativamente a praga no país.
“Criamos uma comissão gestora de pragas (IRMS), que desenvolveu a estratégia de manejo da resistência. A criação desse órgão foi liderada pelas indústrias de inseticidas. O governo investiu mais de dois dólares por fardo em pesquisa. O objetivo era preservar a vida útil de inseticidas de cada grupo. Foi proibido o uso de duas aplicações consecutivas de um mesmo grupo de produto. Ainda hoje, as restrições de utilização de defensivos são muito rígidas”, disse, acrescentando outro fator que ele considera fundamental para o sucesso do programa: o treinamento de pessoal que atua nesse processo.
Segundo Murray, não precisou de lei nem decreto para adesão dos cotonicultores ao plano de manejo de resistência. “Todo mundo percebia a gravidade da situação. E ainda hoje não relaxamos na vigilância e cuidados. Para tanto, fazemos revisão todo ano dos procedimentos, momento em que avaliamos a necessidade de novas restrições às classes de inseticidas”, comentou.
Apesar das rígidas medidas, o país só conseguiu baixar a um nível satisfatório a população da Helicoverpa spp nas plantações com a introdução da biotecnologia Cry1Ac, um gene modificado geneticamente, presente no algodão BT, mais resistente a insetos.
Atualmente, a Austrália já utiliza a nova tecnologia no manejo de praga chamada Cry2Ab e espera outra toxina ainda mais resistente aos insetos para o futuro. No entanto, ele frisa que as toxinas são apenas um componente em todo sistema de manejo das pragas.
A experiência da Austrália demonstra que usar apenas inseticidas no controle de pragas não é eficiente nem inteligente. “É importante ficar sempre a um passo à frente senão o sistema de produção fracassa”, alerta.