Pular para o conteúdo

Bicudo ameaça algodoais de Mato Grosso

Um besouro de aparência inofensiva iniciou sua jornada de invasão aos algodoais do Brasil em meados da década de 1980, dizimando lavouras de algodoeiro nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste, numa época em que o Mato Grosso não sonhava ser o maior produtor de algodão do País. Agora, este inseto ameaça as lavouras de algodoeiro de Mato Grosso e de outros estados brasileiros no Cerrado. Trata-se do bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis), uma praga hoje presente em todas as regiões produtoras de algodão de Mato Grosso.

A boa notícia é que existem formas de combatê-lo, mas para isso não basta um agricultor manejar bem o bicudo em sua fazenda. É preciso que todos os  produtores se engajem no combate à praga seguindo as recomendações técnicas de manejo dos pesquisadores do Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt).

No último Dia de Campo do Algodão, realizado pelo Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) e pela Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), em Campo Verde, no dia 21 passado,  o bicudo-do-algodoeiro foi abordado pelo pesquisador entomologista Miguel Soria e o assessor técnico regional Renato Tachinardi em duas estações. Na oportunidade, foi distribuída uma Nota Técnica em que Soria e Tachinardi listam uma série de ações que devem ser realizadas no final da safra 2013/14 e no período de entressafra.

A Nota Técnica também traz dois mapas de Mato Grosso que comprovam o aumento da incidência da praga nos sete Núcleos Regionais de produção de algodão, por meio do monitoramento de armadilhas iscadas com feromônio grandlure.

Segundo os especialistas, todas as medidas de combate são importantes, entre elas, a destruição imediata da soqueira,  de forma  mecânica ou química,  no máximo após sete dias do início da colheita. "Quando a gente fala em destruição de soqueira, não está se referindo apenas à eliminação do bicudo, mas também de lagartas-praga e de vetores de doenças", explica Tachinardi. "Se fizermos uma destruição de soqueira eficiente, teremos menos pressão de bicudos e de outras pragas na próxima safra", alerta.

Tachinardi também chama atenção para a importância de serem destruídas as plantas tigueras de algodoeiro nas áreas cultivadas ou às margens de rodovias e carreadores, provenientes do derramamento de algodão em caroço pelo transporte inadequado. Ele lembrou que esta medida tem sido realizada sistematicamente pelo IMAmt a cada safra.

Outro cuidado fundamental, advertem os pesquisadores, é cumprir e respeitar o vazio sanitário, período de 15 de setembro a 30 de novembro no qual não é permitido o cultivo de algodoeiro em Mato Grosso (Instrução Normativa Conjunta Seder/Indea-MT 001/2007).

 “Em casos de alto nível de infestação, o bicudo pode inviabilizar a cotonicultura em uma determinada região, já que inúmeras aplicações (sequenciais) de inseticidas serão necessárias para manter a população elevada da praga a um nível incapaz de causar perdas econômicas à cultura, o que aumenta consideravelmente o custo de produção", afirma o entomologista Miguel Soria.  Segundo ele, somente através das boas práticas de manejo é possível conviver com a praga, o que inclui, principalmente, ações de controle cultural, como a destruição eficiente de soqueira, respeito ao vazio sanitário e eliminação de plantas involuntárias de algodoeiro em carreadores e lavouras de soja e milho.

"A redução da população da praga em uma região somente será eficiente se o combate for realizado em nível regional (por todos os produtores), já que o inseto tem a possibilidade de se dispersar de lavouras onde é mal manejado, para algodoais não infestados ou com baixa infestação, e para matas e capões (refúgios da praga) ao final da safra, aumentando a população e a problemática da praga safra após safra", alerta Soria.

 

Nota Técnica – Seguem as práticas/medidas de controle de final de safra/entressafra sugeridas na Nota Técnica divulgada pelo IMAmt:

1- Em todos os talhões, no surgimento do primeiro capulho (cut out), realizar três aplicações sequenciais de inseticidas piretroides SC, EW ou Zeon, a intervalos de 4-5 dias. Caso essas aplicações não tenham sido realizadas no cut out, realizar da mesma maneira em lavouras em fase de maturação mais avançada;

2- Incluir inseticida piretroide SC, EW ou Zeon para o controle do bicudo na aplicação de desfolhantes, maturadores e/ou dessecantes;

3- Não utilizar dosagem menor ou maior do que a recomendada;

4- Não suspender o monitoramento da fase de cut out até a colheita, realizando o controle com inseticidas para o controle do bicudo por meio de piretroides SC, EW ou Zeon, se o nível de controle de até 5% de botões atacados e/ou com sinal de oviposição (incluindo a observação de adultos) for alcançado;

5- Continuar o monitoramento após aplicação de inseticida para o controle do bicudo de modo a verificar a eficiência do controle e a necessidade de uma nova aplicação, se o nível de controle de até 5% for atingido.

6- Além do monitoramento convencional (vistoriando plantas), realizar o monitoramento específico de botões no talhão (mínimo de 2,5 botões/ha) para cálculo do percentual de botões atacados e/ou com oviposição, considerando a observação de adultos;

7- Manter rigor de reentrada na área para monitoramento a cada três dias (pelo menos duas vezes por semana);

8- Estar alerta para rebrotes nas plantas e, caso necessário, considerar aplicação de inseticida para o controle do bicudo em qualquer condição da maturação, inclusive em pré-colheita.

9- Realizar colheita rápida e bem feita;

10- Destruir imediatamente a soqueira, seja mecânica ou quimicamente, no máximo após sete dias do início da colheita;

11- Cumprir e respeitar o vazio sanitário, no qual não é permitido o cultivo de algodoeiro;

12- Monitorar a rebrota de soqueira para nova aplicação de herbicida dessecante (sempre controlar se necessário);

13- Em caso de infestação por bicudo na ocasião da destruição mecânica e/ou química da soqueira, realizar a aplicação de inseticida previamente à operação  de destruição mecânica e/ou juntamente com o herbicida dessecante;

14- Nunca permitir o desenvolvimento de plantas tigueras de algodoeiro ao redor da sede da fazenda, algodoeiras, carreadores e nas bordaduras de talhões, inclusive daqueles que interceptam rodovias;

15- Nunca permitir a multiplicação do bicudo nas lavouras de soja e milho ou em qualquer outra cultura (inclusive nas utilizadas como culturas de cobertura para o solo, como braquiárias, crotalária, sorgo forrageiro e milheto), para isso, eliminar plantas tigueras de algodoeiro nessas culturas assim que forem detectadas;

16- Verificar o aparecimento de rebrotas de soqueira e aparecimento de plantas tigueras em qualquer cultura cultivada sobre soqueira de algodão. Se encontradas, realizar a eliminação imediata das mesmas;

17- Destruir plantas tigueras de algodoeiro nas áreas cultivadas ou às margens de rodovias e carreadores, provenientes do derramamento de algodão em caroço pelo transporte inadequado (esta medida tem sido realizada sistematicamente pelo IMAmt a cada safra);

18- No transporte de algodão em caroço, cobrir completamente o fardo com lona, evitando-se a queda nas margens de estradas e rodovias, e disseminação de plantas involuntárias.

19- Medidas complementares:

– Incluir inseticida para a dessecação de milheto ou de outras culturas de cobertura se houver detecção da praga na área;

– Tratamento de esconderijos em algodoeiras com armadilhas;

– Cuidado fitossanitário com movimento/dispersão de bicudos de áreas vizinhas, como lavouras de milho ou soja com plantas tigueras/involuntárias, áreas recém-colhidas e vizinhos que manejam mal o bicudo.

20- Instalar armadilhas de monitoramento iscadas com feromônio grandlure 60 dias antes do início do plantio, nas adjacências/bordaduras dos talhões que serão cultivados com algodão, para determinação do número de bicudos capturados por armadilhas por semana (número BAS), definição de zona de infestação e do numero de aplicações no primeiro botão floral, bem como de outras ações de safra.