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Bicudo não dá trégua nas lavouras de algodão

O bicudo não está dando trégua aos produtores de algodão de Mato Grosso. O último relatório de monitoramento da praga do Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) indica que três núcleos regionais – Centro (região de Campo Verde), Centro Leste (região de Primavera do Leste) e Sul (região de Rondonópolis) – ainda estão na chamada Zona Vermelha de infestação, isto é, com índices B.A.S. (bicudo por armadilha por semana) acima de dois bicudos. Desde o início de novembro passado, os produtores associados à Ampa (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão) e seu pessoal de campo recebem semanalmente o relatório do Sistema de Alerta de Pragas Emergentes (SAP-e Bicudo), que traz os resultados do monitoramento da praga e comentários dos assessores técnicos regionais (ATRs) e do entomologista Eduardo Barros do IMAmt, responsável pelo projeto Controle Efetivo do Bicudo.

Segundo Barros, alguns fatores têm contribuído para este aumento populacional do bicudo, tais como o manejo inadequado na fase final da cultura do algodão, dificuldade de controle de plantas de algodão resistentes ao glifosato em meio à cultura de soja também resistente a esse herbicida e abandono de áreas. “De modo geral, percebemos uma preocupação maior de produtores, gestores de fazendas e técnicos com o controle da praga, porém algumas circunstâncias favoreceram a presença do bicudo mesmo no período de vazio sanitário do algodão, o que acaba prejudicando todo mundo”, comenta o pesquisador.

O diretor executivo do IMAmt, Alvaro Salles, destaca o clima como um fator agravante no combate ao bicudo este ano: o fato de terem faltado chuvas no início do plantio da safra de soja atrasou a germinação de sementes de algodoeiro que caem naturalmente ou resultam de perdas na colheita do algodão. “Com pouca umidade, muitas sementes que estão no solo não germinam de imediato, já que a germinação total só acontece com umidade plena”, explica Salles. Segundo ele, em muitas áreas, a soja foi plantada com pouca umidade e ainda havia sementes de algodão sem germinar; com isso, a germinação acabou acontecendo em épocas diferentes conforme houve a ocorrência de chuvas, dificultando o controle das plantas involuntárias de algodoeiro. “É difícil controlar essas plantas que o agricultor chama de tiguera, principalmente em diversas idades, pois há necessidade de se utilizarem produtos de contato que muitas vezes trazem algum prejuízo à cultura da soja pela fitotoxicidade”, acrescenta.

Dentre os núcleos regionais de produção algodoeira em Mato Grosso, os núcleos Centro, Centro Leste e Sul foram os que apresentaram situação mais crítica em relação ao bicudo na 17ª semana de monitoramento, com índices B.A.S. de 2,57; 5,99 e 8,09, respectivamente. Em termos de valores médios acumulados (média geral), eles tiveram, respectivamente. 10,93; 2,66 e 28,99 B.A.S. O resultado alcançado pelo Núcleo Regional Centro é 13% menor se comparado ao ano anterior, mas, mesmo assim, o ATR da região, Renato Tachinardi, alerta para a importância de se investir mais na etapa de destruição de soqueiras, que “deve ser encarada como tão importante quanto o plantio e a colheita, requerendo investimentos e precisão”.

“Tivemos praticamente a mesma situação do ano anterior durante os últimos quatro meses monitorados e o que chamou atenção foi perceber que trabalhos bem realizados desde a colheita com foco na redução da população são efetivos e trazem resultados animadores. Por outro lado, locais com situações que estavam aparentemente sob controle pioraram e a população voltou a crescer. Assim é preciso ter foco e preparação para controles de final de ciclo, destruição de soqueiras e vazio sanitário a fim de termos maior segurança quanto ao potencial de prejuízo do bicudo”, afirma Tachinardi.

A pressão de bicudo neste início da safra de algodão também chama a atenção nos demais núcleos regionais, de produção algodoeira mais recente – Norte (região de Sorriso e Lucas do Rio Verde), Noroeste (região de Sapezal) e Médio Norte (região de Campo Novo do Parecis) -, principalmente pela presença de bicudo em meio a lavouras de soja associada a plantas guaxas ou tigueras de algodoeiro.  Diante dessa situação, as recomendações da pesquisa a produtores e aos técnicos são: monitoramento da soja quanto à presença de bicudo, aplicações de inseticidas em soja caso seja detectada a presença de injúrias ou de adultos da praga, inclusão de inseticidas nas dessecações (da soja ou cobertura), iniciar aplicação em bordadura para lavouras de algodão já em V3 e, em áreas com alta pressão, iniciar a aplicações no algodão em área total em vegetativo.

“Estas e outras medidas devem ser adotadas de forma conjunta, ou seja, o trabalho tem que ser feito por todos, caso contrário, será difícil conter a praga”, alerta Barros. “Para termos sucesso no controle do bicudo em Mato Grosso, é importante que o produtor não baixe a guarda e adote as medidas que os grupos técnicos regionais definirem, pois esta praga é muito destrutiva e, se não forem tomadas as medidas corretas, haverá prejuízos em sua lavoura e na de seus vizinhos”, conclui Salles.