Brasília – O representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Alan Bojanic, esteve na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia nessa terça-feira (02/03), acompanhado do diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Ladislau Martin Neto. O objetivo foi conhecer os inseticidas biológicos desenvolvidos pela Unidade para controle do mosquito transmissor da dengue, febre amarela, zika e chicungunya, o Aedes aegypti. Ele foi recebido pelo chefe-geral, José Manuel Cabral, e pela pesquisadora Rose Monnerat, responsável pelo desenvolvimento dos produtos.
A Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia desenvolveu, em parceria com empresas privadas, dois bioinseticidas para controlar o Aedes aegypti: o Bt-horus, em 2005 – com a Bthek Biotecnologia, hoje União Química – e este ano o Inova-Bti com o apoio do Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt). O primeiro já está no mercado e o segundo está em fase final de testes para ser registrado junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Rose Monnerat explica que os produtos são formulados a partir da mesma bactéria, Bacillus thuringiensis israelensis, que de acordo com ela, é utilizada em programas de controle biológico há mais de 40 anos em vários países, sem nunca ter sido relatado um caso de resistência do mosquito. Por isso, a bactéria, que é entomopatogênica (específica para controlar o inseto-alvo e, portanto, inofensiva a qualquer ser vivo) é recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para aplicação na água utilizada no consumo humano.
As cepas (variedades) da bactéria utilizadas na formulação dos produtos são oriundas do banco de bactérias mantido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, que hoje conta com mais de 2.800 estirpes. Segundo a pesquisadora, esse banco é um manancial genético à disposição da ciência, não apenas para desenvolvimento de inseticidas biológicos contra mosquitos transmissores de doenças e insetos que atuam como pragas na agricultura, como as lagartas, por exemplo, mas também como fontes de outras informações em prol do controle biológico no Brasil. “Uma das pesquisas que estamos investindo atualmente é no sequenciamento dos genomas das estirpes de bactérias que compõem o banco. Já temos 13 sequenciadas, com mais de 70 genes identificados. Nossa meta é sequenciar as 2.800”, ressalta.
Vale destacar que o Laboratório de Bactérias Entomopatogênicas (LBE), no qual todos esses estudos são desenvolvidos, é o único da Embrapa acreditado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) para realização de ensaios biológicos. Isso dá ao laboratório credibilidade para prestar serviço a empresas públicas e privadas do Brasil e do exterior parceiras ou não.
O chefe-geral da Unidade, José Manuel Cabral, e a pesquisadora Rose Monnerat enfatizaram para o representante da FAO no Brasil que a única maneira de acabar com as doenças transmitidas pelo Aedes é erradicar o vetor. “Ele é o responsável pela disseminação das enfermidades. Hoje, são quatro, mas amanhã podem ser mais. Por isso, a única solução é exterminar o mosquito”, afirmaram.
Mas, na opinião da pesquisadora, além de utilizar os larvicidas biológicos para erradicar as larvas do mosquito, é preciso educar a população. “Por isso, a melhor solução para se livrar dos efeitos nocivos do Aedes é o manejo integrado”, destaca.
Estimativas apontam que mais de 90% dos criadouros do mosquito estão dentro das residências das pessoas e os bioinseticidas desenvolvidos pela Embrapa podem ser utilizados dentro de casa. “Mas, é fundamental orientar a população para usá-lo corretamente”, completa.
O representante da FAO no Brasil conheceu todas as etapas do desenvolvimento dos inseticidas biológicos, desde o banco de bactérias até a formulação final, incluindo os estudos de clonagem e caracterização das cepas.
Embrapa e Anvisa – Rose Monnerat falou ainda que uma das linhas de atuação da Embrapa para agilizar a regulamentação de produtos biológicos no Brasil é estreitar a parceria com os órgãos reguladores, a exemplo do que já é feito com êxito com a Anvisa. Essa cooperação engloba capacitação e suporte técnico-científico e tem colaborado para agilizar o registro dos produtos biológicos no país. “A regulamentação do nosso primeiro bioinseticida, o Bt-horus, demorou um ano. Hoje, um registro leva, no máximo, 45 dias.