O consultor Walter Jorge dos Santos participou esta semana de um tour técnico do Grupo Técnico do Algodão (GTA) da Serra da Petrovina, no Sul de Mato Grosso. Organizado pelo Instituto Mato-grossense do Algodão como parte do projeto Controle Efetivo do Bicudo, o tour contou com a participação de todas as fazendas da Serra da Petrovina (uma das regiões mais tradicionais de produção algodoeira no estado), segundo o entomologista Eduardo Barros, do IMAmt.
Pesquisador aposentado do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Walter Jorge é um dos mais experientes especialistas em bicudo-do-algodoeiro, que é considerado a maior praga da cotonicultura nacional. "Acompanho o bicudo desde 1983, quando a praga estourou no Brasil", conta o pesquisador, que vem atuando como consultor do projeto Controle Efetivo do Bicudo, do IMAmt. A vinda do especialista a Mato Grosso tem como propósito, segundo ele, "alimentar a chama" que foi acesa pelos produtores do Núcleo Regional Sul preocupados com o aumento da população de bicudos a cada ano-safra. Walter Jorge reconhece que não é "tão simples" fazer a destruição efetiva dos restos culturais do algodão em decorrência de fatores que dificultam as operações, tais como o clima e o uso cada vez maior de cultivares transgênicas com resistência aos principais herbicidas utilizados.
"O fato é que o algodão rebrota e já produz frutos que não servem para nada, a não ser para reproduzir bicudos. O bicudo encontra comida e meios para se reproduzir", explica Walter Jorge, numa referência ao período de vazio sanitário do algodoeiro e ao sistema produtivo adotado no Cerrado com o plantio de soja após o algodão. Quando o produtor volta a plantar o algodoeiro (a partir de dezembro) já encontra alta população de bicudo, como demonstram as armadilhas instaladas pelo IMAmt como parte do projeto Controle Efetivo do Bicudo.
Segundo Walter Jorge, as tigueras (plantas involuntárias de algodoeiro que nascem a partir de sementes que sobram) ficam escondidas em meio às lavouras de soja e os defensivos utilizados não são apropriados para o controle do bicudo. "As lavouras de soja se tornam grande criadouros de bicudos, que ficam escondidos sob soja e milho", afirma o especialista.
Em seu contato com produtores da Serra da Petrovina, o entomologista alertou que o bicudo – responsável por dizimar lavouras de algodão nos estados do Nordeste, São Paulo e Paraná nos anos 1980 – só poderá ser controlado em Mato Grosso se houver muita conscientização e "transparência" nas medidas de controle adotadas por todos os produtores, que têm como destaque a destruição bem-feita dos restos culturais do algodoeiro ao final de cada safra e o monitoramento constante das lavouras.
"O bicudo é problema de todo mundo. Fazemos um trabalho de catequese para que os produtores se conscientizem de que não haverá futuro para esse modelo produtivo se não houver a participação de todos e transparência nas medidas de controle", afirma Walter Jorge. Ele destaca o trabalho que vem sendo feito por produtores do Núcleo Regional Noroeste (região de Sapezal), onde são promovidas visitas às fazendas e os cotonicultores dão notas ao controle da praga realizado pelos vizinhos.
"É preciso reduzir ao máximo a quantidade de plantas de algodão em meio à soja. Temos que quebrar esse paradigma e fazer com que o produtor e sua equipe técnica andem nas lavouras de soja para identificar possíveis focos de reprodução do bicudo", recomenda o especialista. As medidas de controle incluem ainda fazer o repasse manual da destruição dos restos culturais das lavouras de algodão ao final da safra de algodão e a instalação de armadilhas (com feromônios para atração de bicudos) pelos próprios produtores.
O tour técnico contou com a participação do engenheiro agrônomo Márcio de Souza, coordenador de Projetos e Difusão de Tecnologias do IMAmt, do ATR do Núcleo Regional Sul, Edenílson Souza, e do pesquisador entomologista do IMAmt, Eduardo Barros, coordenador do projeto Controle Efetivo do Bicudo. Souza informou que IMAmt está pesquisando melhores metodologias para destruição dos restos culturais do algodão, visando contribuir para que os produtores associados à Ampa (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão) tenham mais eficiência nessa operação fitossanitária ao final da safra 2015/16 e de futuras safras. Esse trabalho vem sendo realizado no âmbito do Grupo Técnico do Algodão.