O encontro com a chefe do Conselho Nacional de Segurança dos EUA, Susan Rice, foi apenas mais um passo no esclarecimento das atividades de monitoramento realizadas pelo governo americano, um processo que ainda não se esgotou, disse ontem (30/01), em Washington, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo. Questionado se saía mais animado a respeito das relações bilaterais do que quando chegou aos EUA, Figueiredo respondeu: "Saio igual". As revelações de que foi espionada pelo governo americano levaram Dilma Rousseff a adiar a visita de Estado a Washington, marcada para outubro.
"Não é uma conversa no meu nível e no nível dela (Rice)que vai levar a uma melhora das relações", resumiu o ministro, que se reuniu com a americana por 43 minutos. Figueiredo disse que "infelizmente" não podia falar sobre o conteúdo do encontro com Rice. "Isso faz parte de um processo. As explicações serão analisadas pelo governo brasileiro e aí a presidenta Dilma vai decidir sobre os próximos passos", disse o ministro, convidado para vir aos EUA na véspera do pronunciamento feito no dia 17 pelo presidente Obama, quando foi anunciada a revisão das atividades da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês). "Atendi o convite o mais rápido possível."
Segundo o ministro, a visita teve por objetivo explicar as alterações feitas no funcionamento do sistema de coletas de dados americano, inserindo-se "dentro de um diálogo determinado pela presidenta Dilma e Obama para o encaminhamento dessa questão". Ao definir o "pulso" das relações entre Brasil e EUA, Figueiredo afirmou que elas são densas e importantes. "São dois parceiros. Temos questões a resolver. É isso o que posso dizer.
Ao responder se o Brasil insistiu que os EUA peçam desculpas pelo episódio de espionagem, Figueiredo deu resposta evasiva. "Posso dizer que o lado americano sabe exatamente e perfeitamente o que nós queremos deles." Dilma disse mais de uma vez que quer que o governo americano se desculpe pelo episódio de espionagem.
Figueiredo também se encontrou com o representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), Michael Froman. Na reunião, o brasileiro disse "claramente" que a retaliação aos EUA no contencioso do algodão "é uma possibilidade", mas afirmou que é necessário analisar cuidadosamente a nova lei agrícola americana, aprovada na quarta-feira pela Câmara e prestes a ser apreciada pelo Senado. "Nós vamos examinar com muito cuidado para ver se essa nova lei atende todos os requisitos nossos." Segundo Figueiredo, o governo americano diz que a nova lei "atende as preocupações brasileiras e elimina os subsídios de modo importante".
Pela avaliação da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) do texto que estava em discussão nas últimas semanas no Congresso, contudo, o novo mecanismo de proteção aos cotonicultores americanos pode ser até mais distorcivo do que os previstos na lei agrícola anterior.
Figueiredo disse que os EUA se dispuseram a fazer um diálogo ampliado sobre a questão, para esclarecer se as preocupações brasileiras são atendidas. Esse processo pode durar dois meses.
Em dezembro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) definiu o recomeço do processo de consultas públicas para retaliar os EUA. As medidas podem passar a valer no fim de fevereiro. Em 2010, um acordo foi fechado para evitar que oBrasil aplicasse sanções autorizadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Pelo acerto, os EUA pagariam US$ 147 milhões ao ano aos produtores brasileiros até a aprovação de uma nova lei que respeitasse as regras da OMC. Em setembro, porém, o governo americano rompeu o acordo, ao pagar um valor menor do que o combinado.
Questionado sobre se as retaliações poderiam entrar em vigor ao mesmo tempo em que o Brasil examina a nova lei, Figueiredo disse que "preferia não entrar nisso, por ser uma decisão colegiada do governo, da própria Camex.".