Pular para o conteúdo

Mosca-branca preocupa produtores de algodão

Quem trabalha no cultivo de algodão sabe que as ameaças fitossanitárias para o desenvolvimento do algodoeiro não se restringem à lagarta Helicoverpa armigera – a praga exótica que atraiu as atenções ao longo de 2013 por sua voracidade e ao fato de transitar com desenvoltura por várias culturas. Neste início de safra 2013/2014 em Mato Grosso, a elevada incidência de mosca-branca vem ganhando destaque.

Segundo o pesquisador Miguel Soria, entomologista do Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt), a mosca-branca, juntamente com a lagarta-falsa-medideira, H. armigera e outras pragas polífagas, fazem parte do complexo de pragas do sistema de produção de grãos e fibras em Mato Grosso, e a dispersão de populações dessas pragas, da soja para a cultura do algodoeiro, especialmente do cultivado como segunda safra (semeado a partir de meados de janeiro), acontece em grandes intensidades e frequência ao final do ciclo da leguminosa.

"Isso ocorre pelo fato da soja estar entrando em fase de maturação/senescência (a planta fica menos atrativa como alimento e abrigo para o inseto) e/ou estar já sendo colhida, e o algodoeiro estar em pleno desenvolvimento vegetativo ou iniciando a emissão de botões florais. Neste aspecto, a soja atua como uma espécie de ‘fornecedor’ de pragas ao algodoeiro, que por sua vez, atua como um ‘receptor’", explica Soria.

E como lidar com essa ameaça? A base para a tomada de decisão é o monitoramento das lavouras, como preconiza o Manejo Integrado de Pragas (MIP). No caso da mosca-branca, segundo o entomologista do IMAmt, o produtor deve ter sua lavoura de algodoeiro monitorada desde a emergência até o final do ciclo por técnico treinado, seguindo um método e realizando o controle da mosca-branca somente se o nível de controle for atingido e/ou seguindo uma estratégia de controle que leve em consideração o manejo da praga na soja cultivada nas adjacências dos algodoais. Ele esclarece que o nível de controle para controlar mosca-branca em algodoeiro é de 20% de plantas infestadas com adultos, ninfas e/ou início de ‘formação de melado’.

"Deve-se evitar a colonização da área cultivada pela praga, que é constatada quando da observação de ovos e/ou ninfas, o que tornará o controle da mesma mais difícil ao longo da safra; dessa forma, revoadas frequentes irão exigir controle constante dos adultos dispersantes da soja", adverte Soria.

Ele reforça que o controle específico da praga na soja que circunda a lavoura de algodoeiro pode ser necessário (o que normalmente não se faz, visto que a soja, nesse momento, já está entrando em fase final de desenvolvimento). Esse controle tem como objetivo diminuir ou minimizar a dispersão de adultos para os algodoais próximos à soja, inclusive considerando o uso de inseticidas para o combate de ninfas na leguminosa, a depender da intensidade da infestação. Isso pode amenizar a situação. Soria diz que é preciso atentar para o ataque inicial de ninfas em reboleiras na cultura do algodoeiro (especialmente nas bordaduras) e lembra ainda que essa é uma praga que pode ocorrer em todo o ciclo da cultura, sendo que ataques da praga na fase de abertura de capulhos podem acarretar em ‘caramelização’ da fibra, depreciando a qualidade do algodão. De acordo com Soria, períodos de estiagem favorecem a praga, que apresenta maiores populações em regiões onde há cultivos sucessivos de hospedeiros (‘pontes verde’), como, por exemplo, em áreas irrigadas com cultivo de feijão na entressafra da soja e algodoeiro, como acontece na região de Primavera do Leste. É preciso saber conviver com a praga, que também tem como hospedeiras as plantas daninhas.

A mosca-branca vem dando trabalho nas fazendas do produtor Otávio Palmeira dos Santos, situadas na região Centro-Leste de Mato Grosso, onde são cultivados aproximadamente 4.400 hectares de algodoeiro de primeira safra e 5 mil ha de soja. Segundo Antonio Correia Lima, responsável técnico pelas fazendas, o ataque de mosca-branca foi "bastante agressivo" quando começou a colheita da soja sob pivô. Para conter a dispersão da praga das lavouras de soja para as de algodoeiro, foi necessário fazer de três a quatro aplicações de defensivos agrícolas sequenciais para controlar os adultos e mais uma aplicação específica para controle de ninfas. "Com a chuvarada a situação melhorou", diz Correia Lima, que continua fazendo o monitoramento para saber se há necessidade de recorrer novamente ao tratamento químico.

 

Lagartas – A maior preocupação de Correia Lima agora é em relação à lagarta-falsa-medideira. "Na soja tivemos mais problemas com essa lagarta do que com o controle de Helicoverpa armigera", comenta o responsável técnico. Ele conta que numa noite chegou a capturar 2.400 mariposas da lagarta-falsa-medideira em uma armadilha luminosa, com uma média de 100 a 200 indivíduos por noite. "Estamos apreensivos e nossa preocupação agora é quanto à incidência no algodoeiro, por isso continuamos monitorando a lavoura", diz.

Segundo o pesquisador Miguel Soria, surtos da lagarta-falsa-medideira podem ocorrer no cultivo do algodão desde o início da fase vegetativa da planta até os 100-110 DAE (dias após emergência). Ele observa que uma ou duas gerações dessa espécie já foram observadas na cultura da soja na safra 2013/14 em níveis elevados.

"A captura de adultos dessa espécie ainda predomina em relação às outras espécies de lepidópteros-praga do sistema de produção, sugerindo o início de surtos ou incidência em algodoeiro já em desenvolvimento no campo, que agora, está disponível para a infestação das próximas gerações", afirma Soria.  O mesmo é válido para outras espécies de lepidópteros-praga que incidem no sistema de produção [como, por exemplo, o complexo de Spodoptera e Heliothinae (Heliohtis virescens e H. armigera)].

Para lagarta-falsa-medideira, se o nível de controle for atingido (10% de desfolha da planta ou 2 lagartas/m até 30-40 DAE, e 10% de desfolha ou 2 lagartas/planta após 30-40 DAE), o uso de inseticida para o controle da infestação se faz necessário. Nesse caso, é importante que esse controle seja feito enquanto as lagartas ainda são pequenas: "Lagartas pequenas (no máximo com 1,0 cm) devem ser o alvo das aplicações, atentando para quando a cultura estiver com as linhas fechadas, o que exigirá uma boa tecnologia de aplicação, pelo hábito da lagarta em permanecer no interior e terço-médio/baixeiro da planta", diz o pesquisador.

 

Treinamento – Também nesse caso, o monitoramento das lavouras é fundamental para a tomada de decisão e por isso é muito importante contar com profissionais bem treinados e atualizados. No próximo dia 13, em Sorriso, o Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) inicia um ciclo de palestras voltado para o Treinamento de Monitores de Pragas do Algodoeiro – Safra 2013/2014. Realizado com recursos do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA), o treinamento tem como público-alvo monitores de lavouras de algodoeiro, técnicos agrícolas,  engenheiros agrônomos, gerentes de fazenda e produtores de algodão, e terá a participação dos pesquisadores Miguel Soria, Rafael Galbieri e Edson de Andrade Junior do IMAmt, e Valéria de Oliveira Faleiro da Embrapa Agrossilvipastoril.

As inscrições podem ser feitas com Jogiane ([email protected]) pelo telefone (65) 3925-1802 ou Flávia ([email protected]) pelos telefones (66) 3498-6556 ou (65) 9983-5458, ou ainda com os assessores técnicos regionais (ATRs) de cada região. A programação do treinamento é a seguinte:

Ampa - Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão.